domingo, 25 de janeiro de 2026

Uma Lição de Humildade




Um dos maiores erros de um mestre é não compreender o ritmo de aprendizado de um discípulo. Foi algo que eu constatei durante a minha pós-graduação enquanto eu ajudava a aplicar uma prova de fisiologia digestória para uma turma da Farmácia.

Eu havia elaborado uma questão inspirada em um vestibular da FUVEST a respeito da polaridade de vitaminas: a pergunta original questionava quais moléculas eram solúveis em sucos de frutas (meio aquoso) enquanto a minha indagava quais dos compostos teriam sua absorção prejudicada por usuários de Xenical (medicamento que impede o intestino de captar lipossolúveis).

Considerava aquela questão trivial, sobretudo para estudantes de farmácia que possuem extensa carga horária em disciplinas de química. Para a minha surpresa, vi muitos alunos em dificuldade com a pergunta. Muitos deles estavam recorrendo a "macetes" para relembrar quais vitaminas eram lipossolúveis e a quantidade de erros foi bem maior do que eu esperava.






Compreendi, com aquela questão, que as pessoas possuem ritmos de aprendizados diferentes e o que é trivial para um mestre pode não ser óbvio para um aprendiz. Isso sem mencionar que a urgência do momento (eles precisavam obter uma boa nota para serem aprovados na disciplina) talvez os tenha prejudicado.

Recebi, há alguns dias atrás, a notícia da demissão do treinador Alex de Souza que teria sido motivada pelo fato dos métodos do técnico não estarem sendo bem assimilados pelos jogadores. O ex-meia era um atleta excepcional, porém "atletas comuns" possivelmente não conseguem compreender ou desempenhar os fundamentos com a mesma desenvoltura do paranaense. Casos semelhantes já haviam ocorrido com os também ex-futebolistas Paulo Roberto Falcão e Thierry Henry.

Lembrei de minha própria experiência com os estudantes ao ler a notícia da demissão de Alex, com a licença de que eu era um aluno apenas mediano na faculdade. Percebi que havia cometido o mesmo erro que o ex-meia ao pressupor que o trivial para mim também seria facilmente assimilado pelos graduandos.

Aprendi que bons mestres precisam ter humildade se quiserem formar bons discípulos e compreender que nem tudo que é obvio para um instrutor também o será para um aprendiz. Desde então, procurei me tornar mais próximo dos alunos e me ofereci para ouvir mais as suas dúvidas. Na verdade, nem foi necessário visto que as últimas turmas que monitorei foram excepcionais em todos os sentidos!













 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Spoilers




Spoiling é o ato de contar o que vai acontecer em algum filme, seriado ou afins. O termo tornou-se comum durante os anos 2000 junto com o advento da internet e das redes sociais. Eu jamais me incomodei com tal coisa visto que eu era leitor assíduo da revista Herói (será que alguém ainda se lembra disto?) cuja especialidade era divulgar o final dos animes antes que eles fossem exibidos na televisão! A maioria das pessoas, no entanto, fica bastante irritada quando recebe algum spoiler!

Eu tinha dois amigos da faculdade que adoravam ver Smallville (não me peça detalhes do seriado, pois eu nunca assisti a nenhum episódio disso!) e um deles vivia infernizando o colega com spoilers da produção! Até hoje lembro quando íamos almoçar juntos às segundas-feiras e o sujeito ameaçava contar o desfecho da série enquanto o outro fugia desesperadamente para não ouvir!

A convivência com a dupla diminuiu com o passar do tempo visto que cada um deles foi buscar emprego e passamos a estudar em turmas diferentes. Quando nos reencontrávamos, no entanto, eu perguntava a respeito do Smallville de zoeira e o colega ameaçava a soltar spoilers do seriado novamente, enquanto eu só ficava rindo das discussões entre os dois!






Eu, há alguns dias atrás, perguntei aos meus contatos do Instagram suas opiniões a respeito de Stranger Things (eu não tenho o hábito de ver séries) quando uma das pessoas que me recomendou a produção foi justamente aquele amigo que vivia fugindo dos spoilers na faculdade! Provavelmente ele já se esqueceu do ocorrido após tanto tempo e nem tentou se "vingar" de mim! Eu, no entanto, não me importo em saber o final de um seriado antes de assistir, conforme escrevi anteriormente!

É muito difícil, aliás, não tomar um spoiler nos dias de hoje. Com o avanço da internet, as informações percorrem o mundo na velocidade da luz e diversos influenciadores divulgam amplamente o final de séries em busca de engajamento. O próprio buscador do Google acaba entregando o que vai acontecer em produções. Recentemente, eu estava procurando sugestões de animes no Youtube e a própria plataforma informou quais personagens iriam morrer nos desenhos!

Minha sugestão é se isolar dos meios de comunicação caso você queira evitar spoilers, principalmente da internet! Se meu amigo já sofria com o colega contando o final de Smallville, imaginem como seria hoje quando os influenciadores apelam até para vazamentos em busca de cinco minutos de fama! Ou então, faça como eu e conforme-se, assim como ocorreu comigo lendo a revista Herói!







domingo, 4 de janeiro de 2026

Minha Primeira Aula




Não canso de escrever que uma das atividades que mais gostei de fazer durante a pós-graduação foi ajudar professores em aula! Foi muito divertido vivenciar "o outro lado" das apresentações e também fiz muitas amizades com os alunos! Isso sem falar que conviver com os estudantes preencheu muitos vazios que eu sentia durante a minha graduação.

Estava em uma reunião com o coordenador do curso quando ele propôs a nós para que elaborássemos uma aula para ser apresentada durante o dia seguinte, assim como ocorre nos concursos para a admissão de docentes. Peguei o livro que o professor adotava (o tema era mecânica ventilatória no sistema respiratório) e comecei a preparar a apresentação assim que eu cheguei em casa. Lembro que terminei quase uma da manhã!

Combinamos de encontrar o coordenador pouco depois da hora do almoço. Eu nem ensaiei a apresentação, apenas fiz uma rápida revisão pouco antes do encontro -isto acabou prejudicando o meu desempenho durante a aula, como veremos adiante. Como seria apenas um "teste", eu não estava nervoso e fui para sala de reunião tranquilamente.

Coloquei os slides para a explanação e comecei a aula. Senti a falta do ensaio naquele momento e o nervosismo bateu! Sem mencionar que sou péssimo para falar em público! Eu gaguejei bastante durante a explanação em decorrência disto. A despeito dos entraves, a aula fluiu e consegui realizar a apresentação.






O coordenador, então, realizou a avaliação da minha apresentação. Ele apontou alguns conceitos errados que coloquei nos slides e avisou que fui rápido demais -eu dispunha de uma hora para lecionar mas acabei terminando tudo após cerca de vinte minutos. Mais uma vez, a falta de um ensaio acabou prejudicando o meu desempenho.

Os elogios, contudo, me surpreenderam ainda mais do que as críticas. O coordenador apreciou a minha criatividade nos slides e gostou da minha abordagem utilizando conceitos de física (obrigado ao curso Anglo Osasco por me preparar tão bem nessa área)! O professor também afirmou que minhas dificuldades com a fala poderiam ser indícios de inteligência visto que alguns colegas do instituto também apresentavam tais características, segundo o docente.

Eu só voltaria a dar aula durante o ano seguinte para a minha qualificação de mestrado. Na ocasião, eu já estava mais maduro e recebi um tema que eu dominava um pouco mais, a diferenciação sexual. Isso sem mencionar que eu tive bem mais tempo para ensaiar e para me preparar!

Ajudar os professores em sala foi algo que surpreendeu em diversos sentidos. Eu nunca imaginei que possuísse algum talento para ensinar, sobretudo para alguém que se comunica tão mal em púbico! Eu gostaria muito de agradecer ao meu supervisor pelo feedback. Confesso que eu jamais havia enxergado em mim tudo aquilo que ele me disse após a aula!