Mostrando postagens com marcador N'Golo Kanté. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador N'Golo Kanté. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de fevereiro de 2023

Ponto de Equilíbrio

Imagem extraída de www.facebook.com/EURO2024



Uma passagem do livro Os Números do Jogo afirma que "os artistas da bola necessitam da ajuda dos artesãos para brilharem em campo". Uma das interpretações desta frase é de que meias e atacantes só terão segurança para fazerem seus gols se puderem contar com defensores sólidos lá atrás.

N'Golo Kanté é um "artesão da bola". Não é um jogador lembrado pelos gols ou pelos lances bonitos. Suas especialidades são oferecer proteção à zaga e também "grudar" em meias ou atacantes rivais. É um atleta bastante faltoso e até violento em campo, mas foi graças ao meio-campista que o Chelsea e a Seleção Francesa conquistaram seus últimos títulos.

O francês, porém, foi descoberto muito tardiamente no futebol -ele já estava com 25 anos em 2016 quando explodiu no Leicester City. A idade, infelizmente, aumenta o risco de lesões em atletas, sobretudo em esportes de alto rendimento. Kanté, hoje com 31 anos, acabou se machucando no início da atual temporada europeia e virou desfalque tanto para o Chelsea quanto para a Seleção Francesa. E isto teve consequências em campo.

Kanté é o ponto de equilíbrio do Chelsea e também da França. A má fase dos Blues coincidiu justamente com o desfalque do francês visto que, sem ele, a equipe londrina fica mais vulnerável em campo e os demais jogadores têm menos liberdade para atacar. A história se repetiu na Seleção Francesa durante a Copa do Mundo com os Bleus sofrendo muito mais lá atrás em relação ao Mundial de 2018 -embora sua ausência tenha favorecido a renovação que os comandados de Didier Deschamps necessitavam.



Imagem extraída de www.facebook.com/EURO2024



O Chelsea e a Seleção Francesa devem aproveitar a ausência do volante e aprenderem a jogar sem Kanté em campo. Sim, afinal o meio-campista já está com 31 anos (completa 32 em março) e a tendência é de que as lesões se tornem ainda mais frequentes, além do jogador entrar em decadência física e técnica a médio prazo.

Não é uma tarefa fácil visto que o jogador havia feito toda a diferença em campo pela França na Copa 2018 e também pelo Chelsea na temporada 2020-21. A tarefa de se renovar uma equipe, contudo, é algo constante e necessário visto que os times vão se tornando previsíveis para os adversários e os atletas terão de parar algum dia.

A lesão de Kanté, portanto, foi um aviso de que o volante já está entrando na reta final de sua carreira e que os times que ele defendem precisam aprender a jogar sem o meio-campista. O Chelsea já providenciou a contratação de Enzo Fernández para assumir a função a longo prazo enquanto a França vem utilizando Camavinga e Tchouaméni na posição, embora os três tenham características um pouco diferentes em campo.

Kanté é um jogador que confirma a tese do livro Os Números do Jogo visto que sua raça foi essencial para os títulos das equipes que defende. Mas está chegando a hora do Chelsea e da França de aprenderem a caminhar sem o volante.



Imagem extraída de www.facebook.com/EURO2024




sábado, 11 de janeiro de 2020

O Brucutu que Mudou a Minha Opinião

Imagem extraída de www.facebook.com/nglkante/



Uma das minhas maiores inspirações para escrever este blog é o ex-meia Paulo César Caju, um defensor fervoroso do futebol-arte e crítico ferrenho dos jogadores brucutus. Li sua coluna semanal no extinto Jornal da Tarde de 2008 até 2012 quando o periódico encerrou suas atividades.

Meus textos, no começo, eram emulações das ideias de Caju, criticando muito o futebol mais físico e os treinadores pragmáticos, ao mesmo tempo que eu exaltava nomes como Guardiola, Johan Cruyff, Telê Santana e outros que pregavam o jogo mais ofensivo.

Fui observando, contudo, as transformações do futebol ao longo do tempo e, simultaneamente, percebi o quanto minhas ideias iniciais eram radicais. Ainda acredito que seja importante ter a posse da bola, buscar o ataque e jogar de maneira coletiva. Mas hoje reconheço a importância de se defender bem, de negar os espaços aos rivais e do jogo mais físico.

Dentre os muitos jogadores que adotam o segundo perfil mencionado, um me chamou a atenção nos últimos anos: o volante francês N'Golo Kanté, bicampeão inglês (conquistou um título pelo Leicester City em 2016 e outro pelo Chelsea no ano seguinte) e campeão mundial pelo seu país.

Nascido na França e filho de imigrantes malineses, Kanté teve um começo difícil em sua carreira futebolística. Por causa de sua baixa estatura (possui apenas 1,68m), tinha dificuldades em se firmar nos times e precisava complementar a renda trabalhando como lixeiro, até que recebeu oportunidades em clubes medianos na França como Boulogne e Caen. Passou a ser convocado para a seleção de seu pais após se destacar pelos dois clubes ingleses que defendeu.

Seu estilo de jogo não é vistoso. Por ser um jogador mais físico e com o intuito de destruir jogadas ao invés de construí-las, Kanté é responsável pelo "trabalho sujo" no meio-de-campo. Mesmo sendo "baixinho" para os padrões do futebol, o francês não foge de nenhuma dividida e, por causa disso, é um atleta bastante faltoso em campo. Até hoje não entendo como ele jogou a Copa de 2018 sem ter sido expulso ou suspenso -foram apenas dois cartões amarelos, sendo um na semifinal contra a Bélgica e outro na final diante da Croácia.



Imagem extraída de www.facebook.com/nglkante/



Não fiquei encantado com o estilo de jogo de Kanté, mas é impressionante como ele faz a diferença em campo. Ele oferece muita segurança na defesa -Varane e Umtiti tiveram uma vida muito mais fácil com o volantão oferecendo proteção à zaga. O camisa 7 também permitia que os laterais Pavard e Hernandez subissem tranquilamente para o ataque já que ele ajudava a preencher eventuais espaços deixados pela dupla.

Kanté me ajudou a compreender de maneira definitiva a importância dos volantes do tipo "xerifão". Jogadores como o francês dão a cobertura necessária para que jogadores mais ofensivos possam brilhar -se o meio-campista não estivesse em jogo, provavelmente os meias e os laterais teriam muito menos liberdade para atacar já que teriam de se preocupar mais em preencher eventuais espaços.

Continuo sendo um apreciador do futebol-arte. Ainda gosto de ver equipes leves e ofensivas como Barcelona, Ajax ou Arsenal.

É inegável, no entanto, a importância de jogadores com o perfil de Kanté, sobretudo no futebol atual quando preenchimento dos espaços está muito mais em evidência do qualquer outro fundamento no esporte.

Sua história comovente, sua superação e, principalmente, seu desempenho espetacular em campo me convenceram a deixar as ideias de Caju um pouco de lado e fizeram me curvar diante de um pequeno porém talentoso brucutu.



Imagem extraída de www.facebook.com/nglkante/