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terça-feira, 12 de setembro de 2023

O Evitaço É Real

Imagem extraída de www.facebook.com/FederataShqiptareeFutbollit



Sylvinho, há nove meses atrás, aceitou o convite da Federata Shqiptare e Futbollit (FSHF) para comandar a Seleção Albanesa ajudar na renovação da equipe. A "aventura", porém, teve resultados muito melhores que o esperado: desde que o brasileiro assumiu os Kuq e Zinjtë, o time teve um desempenho extraordinário (5 jogos, 3 vitórias, 1 empate e 1 derrota) e atualmente ocupa a liderança do Grupo E a frente das favoritas Polônia e República Checa.

O ex-lateral estava em baixa após campanhas fracas no Lyon da França e no Corinthians. Pior: o treinador virou meme por causa de suas preleções durante os tempos enquanto dirigia o Timão, quando ficou conhecido por gritar "evita" nos vestiários.

O brasileiro, porém, chegou ao país balcânico respaldado por seu currículo como atleta. Sylvinho e seu auxiliar Pablo Zabaleta, segundo o portal ESPN, foram lembrados pelos dirigentes da FSHF "por terem jogado com Lionel Messi".

A aposta dos albaneses tem se mostrado acertada com uma campanha excepcional dos Shqiponjat até o momento. Cabe mencionar que o Grupo E é bastante acessível, sobretudo com a Polônia em decadência junto com a geração de Lewandowski e com a República Checa ainda buscando um novo rumo desde as aposentadorias de Čech, Nedvěd e Rosický. Participam ainda os "azarões" Moldávia e Ilhas Faroe.



Imagem extraída de www.facebook.com/FederataShqiptareeFutbollit



As ressalvas, porém, não tiram os méritos de Sylvinho e de seus assistentes. O futebol é um esporte bastante praticado na Albânia mas o máximo que os Kuq e Zinjtë conseguiram até o momento foi a participação na Euro 2016 com aquela fantástica geração comandada por Gianni De Biasi e que terminou já na fase de grupos. Repetir o feito, portanto, já seria suficiente para ex-lateral escrever o seu nome na história dos Balcãs.

Sylvinho, ademais, vem conseguindo desenvolver seu trabalho em um ambiente onde há menos pressão por resultados, afinal no Lyon e no Corinthians havia aquela ânsia para reviver as glórias do passado e o desempenho ruim a curto prazo acabou pesando. A Albânia, como "azarona", não tinha muito a perder. Tanto que a derrota na estreia diante da Polônia de Lewandowski foi um placar considerado como "aceitável".

O ex-lateral ainda tem mais três jogos pela frente para igualar o feito de De Biasi -recebe a República Checa (que tem uma partida a menos), visita a Moldávia e termina recepcionando as Ilhas Faroe. Cabe mencionar que uma segunda colocação já garante uma vaga direta e, portanto, os Kuq e Zinjtë só dependem das próprias forças para irem à Euro 2024.

Sylvinho, mesmo com um elenco de poucos craques e com um time de pouca tradição no futebol, vem surpreendendo nestas Eliminatórias da Euro 2024. O feito do ex-lateral já foi o suficiente para empolgar o país balcânico e calar os seus críticos.

O "evitaço" é real.



Imagem extraída de www.facebook.com/FederataShqiptareeFutbollit




quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

Segunda Chance

Imagem extraída de www.facebook.com/corinthians



A Associação Albanesa de Futebol (Federata Shqiptare e Futbollit -FSHF) anunciou o brasileiro Sylvinho como treinador de sua seleção até julho de 2024. O ex-lateral terá como auxiliares os também ex-jogadores Doriva e Pablo Zabaleta. O trio terá a missão de levar os Kuq e Zinjtë de volta à Eurocopa e repetir a façanha de Gianni De Biasi em 2016. Será a segunda aventura do ex-corinthiano no banco de reservas na Europa -ele teve uma passagem fraca pelo Lyon da França em 2019.

A Albânia apresentou um desempenho razoável durante o último ciclo conseguindo subir (e permanecer) na divisão B da Nations League e, por muito pouco, não foi à repescagem para a Copa do Mundo 2022 -ficou a apenas dois pontos da Polônia no Grupo I das Eliminatórias Europeias. Há, portanto, algum potencial na equipe dos Balcãs.

Sylvinho terá um bom material humano para trabalhar, sendo a maioria jogadores que se destacam ou se destacaram no futebol italiano: os goleiros Etrit Berisha e Thomas Strakosha; o lateral Elseid Hysaj; os zagueiros Marash Kumbulla e Berat Djimsiti; e o volante Kristjan Asllani. O treinador ainda pode receber reforços oriundos de outros países, incluindo outras nações da Península Balcânica (há muitos atletas de etnia albanesa nascidos no Kosovo e na Macedônia do Norte) e a Suíça (muitos albaneses-kosovares buscaram refúgio por lá durante a guerra em 1999).  

A missão para o ex-lateral também não parece impossível. A Albânia está no Grupo E das Eliminatórias da Euro 2024, composto por Polônia, República Checa, Ilhas Faroe e Moldávia. É possível até sonhar com a vaga direta (com o aumento de participantes a partir de 2016, um 2º lugar já é suficiente para a classificação), embora a repescagem seja algo mais plausível (é necessário realizar uma boa campanha como 3º colocado). Sylvinho, portanto, não precisaria realizar um grande feito pelos Kuq e Zinjtë para entrar para a história do futebol e se recolocar no mercado.



Imagem extraída de www.facebook.com/corinthians



Uma pena que algumas das referências do histórico time de 2016 já não estejam mais à disposição. O zagueiro e capitão Lorik Cana se aposentou naquele ano, enquanto o volante Taulant Xhaka deixou a Seleção Albanesa após desentendimentos com Gianni De Biasi.

Eu sempre busco avaliar pontos negativos nas decisões do futebol. Observei, contudo, poucos possíveis prejuízos a Sylvinho ou à Seleção Albanesa na contratação do brasileiro, visto que os Kuq e Zinjtë são azarões e o treinador pouco teria a perder visto que sua primeira experiência na Europa já foi ruim. O ex-lateral só sairia prejudicado em caso de resultados muito ruins ou se tiver desentendimentos com o grupo.

Sylvinho, por outro lado, terá de fazer uma campanha excepcional pela Albânia se quiser uma recolocação efetiva no mercado. Além de repetir o feito de De Biasi, o ex-lateral teria de superar o italiano levando os Kuq e Zinjtë pelo menos até às oitavas-de-final. Se tiver êxito, pode subir degraus em sua carreira e, quem sabe, voltar aos clubes do continente.

Um eventual sucesso do ex-lateral também significaria a possibilidade da Europa reabrir as portas aos treinadores brasileiros. O próprio Sylvinho havia sido o último técnico nascido no Brasil a receber uma oportunidade em um grande clube europeu mas sua passagem pelo Lyon foi fraquíssima e o ex-lateral foi demitido antes de completar seis meses no cargo.

Resta saber se Sylvinho terá êxito em sua missão. O caminho não parece muito complicado mas o futebol possui o fator humano envolvido e nem sempre os resultados são os esperados. Basta lembrar-nos da última Copa do Mundo quando o Marrocos surpreendeu e deixou para trás Bélgica, Espanha e Portugal. Ou quando a Alemanha, com um ótimo time no papel, caiu novamente já na fase de grupos.



Imagem extraída de www.facebook.com/corinthians




terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Intercâmbio dos Contrastes

Montagem realizada com imagens extraídas de www.facebook.com/FlamengoOficial/ e www.facebook.com/olympiquelyonnais/



O segundo semestre de 2019 ficou marcado pela contratação do treinador português Jorge Jesus (acima à esquerda) pelo Flamengo e do técnico brasileiro Sylvinho (acima à direita) pelo Lyon da França.

Cada uma das contratações ganhou um significado simbólico. A vinda de Jesus significaria o fim definitivo da xenofobia por parte de nossos dirigentes que sempre relutam muito em contratar treinadores estrangeiros. Já a ida e eventual sucesso de Sylvinho à França abriria novamente as portas do mercado europeu aos técnicos brasileiros.

O português estava em baixa no mercado europeu. Depois de muitas temporadas vitoriosas no Benfica, o treinador não conseguiu repetir o desempenho no arquirrival Sporting e estava na Arábia Saudita quando viu a oportunidade de renascer no Flamengo.

O brasileiro, por sua vez, era o auxiliar técnico de Tite. O ex-lateral estava prestigiado no mercado nacional, sendo disputado pela CBF (a confederação o queria para assumir a seleção pré-olímpica) e pelo Corinthians (clube que o revelou). Mas o paulistano aceitou o convite do amigo Juninho Pernambucano, hoje dirigente do Lyon, para assumir os Gones.

O treinador lusitano teve um início turbulento, com direito a uma eliminação da Copa do Brasil diante do Athletico Paranaense, mas teve o apoio dos dirigentes e dos torcedores. O português correspondeu ao voto de confiança e conseguiu implantar sua filosofia de jogo no Flamengo, levando o Rubro-Negro a fazer história no futebol brasileiro.

Sylvinho, no entanto, não conseguiu transformar em resultados toda a confiança nele depositada. O Lyon teve o pior início de temporada em toda sua história na Ligue 1 chegando a flertar com o rebaixamento. Não obstante, a equipe francesa sofreu na Champions League em um grupo considerado acessível, com Benfica, Red Bull Leipzig e Zenit. O brasileiro acabou demitido ainda em outubro e substituído pelo francês Rudi García.



Imagem extraída de www.facebook.com/olympiquelyonnais/



O desfecho de ambos os treinadores, infelizmente, reforça uma série de teorias negativas sobre o nosso futebol atual. O desempenho ruim de Sylvinho no Lyon corrobora com a tese de que o Brasil "exporta pés mas não cérebros". E o sucesso incontestável de Jesus no Flamengo dá argumentos àqueles que defendem que "o treinador brasileiro está atrasado em relação ao europeu". E, lembrando, o técnico português estava em baixa na Europa.

Nem todo técnico europeu, obviamente, foi bem-sucedido aqui no Brasil, ao mesmo tempo que nem todo treinador tupiniquim fracassou na Europa. Os portugueses Paulo Bento e Sérgio Vieira não tiveram o mesmo sucesso (ou sorte) do compatriota em terras brasilis, enquanto Felipão teve um bom desempenho à frente da seleção portuguesa -foi vice-campeão na Euro 2004 e quarto lugar na Copa de 2006.

É preciso compreender, porém, que os motivos que levaram Jesus a triunfar com sobras no Brasil estão diretamente ligados às razões que levaram Sylvinho a fracassar na França. O Brasil, por ser o único pentacampeão em copas do mundo e por contar com muitos talentos excepcionais, acomodou-se e deixou de se atualizar, jogando mais com o nome do que com empenho. Os europeus, por sua vez, investiram e continuam investindo em todos os sentidos no futebol incluindo formação de atletas, infra-estrutura, treinamento de pessoal e até pesquisas científicas.

O mesmo acontece com nossos treinadores. A grande maioria ainda aposta em filosofias de jogo dos anos noventa e em resultados a curto prazo. Os poucos que tentam pensar fora do lugar comum não conseguem se firmar em nome do imediatismo.

Tudo fica ainda mais evidente quando nossas equipes são confrontadas pelas europeias. Basta avaliar o desempenho de nossos times nos últimos Mundiais de Clubes. Real Madrid e Barcelona, por exemplo, nem precisaram se esforçar muito para superarem Grêmio e Santos respectivamente.

Os desempenhos de Jesus e Sylvinho fora de seus respectivos continentes sustentam ainda mais a tese de que nosso futebol está atrasado em relação ao da Europa.



Imagem extraída de www.facebook.com/FlamengoOficial/