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quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Emily e Pia Tinham Razão?

O Brasil passou pela França e pela Espanha mesmo sem Marta, suspensa
(imagem extraída de www.facebook.com/selecaofemininafutebol).



Não estou acompanhando as Olimpíadas 2024 por questão de agenda visto que estou me dedicando a outras atividades. Eu, no entanto, aproveitei o desempenho da Seleção Feminina para trazer á tona um questionamento a respeito de Marta: a Rainha ainda é fundamental para a equipe?

Ninguém nega que Marta seja a maior jogadora do Brasil e uma das melhores do mundo -suas conquistas individuais e coletivas falam pela atleta. Ao mesmo tempo, sabe-se que a alagoana já ultrapassou os 30 anos de idade (está com 38) e seu desempenho já não é o mesmo de oito anos atrás quando recebeu seu último prêmio FIFA Best. As treinadoras Emily Lima e Pia Sundhage, percebendo isto, tentaram diminuir a participação da meio-campista, em vão visto que isto foi uma das justificativas utilizadas para a demissão das técnicas. 

O Brasil classificou-se às quartas-de-final das Olimpíadas por sorte -ficaram em terceiro lugar em sua chave e dependeram do desempenho das adversárias para avançarem ao mata-mata. Não obstante, Marta foi expulsa após quase chutar a cabeça de Olga Carmona e suspensa por duas partidas. Mas o que parecia ser uma catástrofe, foi um "mal que veio para o bem".

A Seleção, sem o talento de Marta, pode ter perdido a graça e a técnica em campo, tornando o futebol muito mais truculento e até feio. Em compensação, o time ganhou em mobilidade, imposição física e recomposição. Com isso, o Brasil conseguiu resistir às fortes francesas e espanholas, voltando a uma final olímpica após 16 anos.



Imagem extraída de www.facebook.com/selecaofemininafutebol



Os próprios jornalistas perceberam que o desempenho do Brasil melhorou sem a capitã e passaram a questionar se Marta deveria voltar à titularidade na final contra os Estados Unidos, a ser realizada no próximo sábado.

Emily e Pia não conseguiram impor suas ideias na Seleção Feminina mas o tempo provou que as treinadoras tinham razão quando o Brasil deveria depender menos de Marta, ainda que ela seja a maior jogadora do país. O futebol está muito mais exigente em termos de força e nem sempre o talento compensa a decadência física. Um bom exemplo foi Cristiano Ronaldo, um ano mais velho que a alagoana e realizando uma Eurocopa aquém do esperado.

Nada ou ninguém apagará os feitos que Marta realizou mas temos de admitir que a genial atleta já está beirando os quarenta anos e seu corpo, infelizmente, não performa como há oito anos atrás. A Seleção terá de aprender a atuar sem sua capitã por bem ou por mal visto que ela está prestes a se aposentar e não se sabe se surgirá alguma outra jogadora para preencher o vazio deixado pela alagoana.

Emily Lima e Pia Sundhage tinham razão no fim das contas. As duas treinadoras podem ter pago com seus empregos na Seleção por tirarem o espaço de Marta no time mas tudo o que as duas técnicas alertaram no passado vêm se concretizando nesta Olimpíada.



Imagem extraída de www.facebook.com/selecaofemininafutebol




sábado, 26 de agosto de 2023

O que o Brasil Pode Aprender com a Copa 2023?

Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup



Encerrou-se há uma semana a Copa do Mundo Feminina 2023. A competição deixou um enorme legado afinal tivemos campeãs inéditas (algo que já se sabia desde as quartas-de-final com a queda do Japão), a consagração da Espanha (que, tristemente, acabou manchada com a atitude infeliz do presidente da RFEF, Luis Rubiales) e o recorde de audiência/engajamento ao redor do mundo.

Mas e o Brasil?

Nós brasileiros sequer valorizamos um vice-campeonato, quanto mais um time que caiu já na fase de grupos. Até hoje lembro quando a Seleção Masculina ficou em 2º lugar na Copa 1998 e os jogadores foram chamados de "amarelões" apesar da boa campanha. As nossas meninas certamente estão sendo ainda mais criticadas pelos torcedores a despeito de não serem favoritas no Mundial.

A CBF fez um grande esforço junto das emissoras e dos patrocinadores para divulgar a competição. Isto fez com que a Copa tivesse um recorde de audiência também no Brasil mas, ao mesmo tempo, criou uma expectativa muito grande o que aumentou o sentimento de decepção quando a Seleção Feminina caiu já na fase de grupos.

O Brasil, verdade seja dita, fez uma Copa ruim. O time foi eliminado em um grupo era considerado "acessível" (composto por França, Jamaica e Panamá) e nossas meninas não jogaram um bom futebol nas partidas disputadas, exceto contra as frágeis panamenhas.



Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup



E o que o Brasil pode levar deste Mundial após um desempenho tão fraco?

Temos de lembrar que o Brasil possui ampla tradição no futebol masculino mas ainda vem engatinhando na categoria feminina -ou, melhor escrevendo, está na "adolescência". A profissionalização efetiva da modalidade começou há cerca de dez anos por imposição da CONMEBOL que ameaçou excluir de suas competições os clubes que não investissem também nas mulheres.

As equipes consideradas favoritas, por outro lado, já estavam investindo há muito tempo na formação de jogadoras e também na profissionalização de suas equipes. Nunca faltou talento ao Brasil, tanto que nossas meninas tiveram bons desempenhos em Mundiais e Olimpíadas anteriores mas estava evidente que as brasileiras tinham (e ainda têm) um longo caminho a percorrer para lutar contra as potências da modalidade. A própria Espanha serve como exemplo visto que a Roja não possuía tradição em Copas (foi apenas a sua 3ª participação) mas correu atrás e hoje colhe os frutos.

O torcedor brasileiro também precisa mudar sua postura em relação ao futebol feminino visto que ainda há muito preconceito e machismo em relação à modalidade, algo que pode ser facilmente notado pelas redes sociais. Ademais, o torcedor também deve reconhecer o esforço das esportistas mesmo nas derrotas, até porque o Brasil não foi eliminado por desvio de conduta ou por fazer corpo mole em campo. Um bom exemplo foi a Austrália, que terminou a Copa de mãos vazias (ficou em 4º lugar) a despeito de jogar em casa mas os fãs exaltaram as Matildas como verdadeiras heroínas.

Ainda levará algum tempo para que o Brasil possa evoluir no futebol feminino e deixar de ser um coadjuvante nas principais competições. As gerações anteriores de nossas meninas já provaram que há talento e potencial para isto. O momento é de aprender com os erros e continuar investindo na modalidade por dolorosa que tenha sido a eliminação. As espanholas, com menos tradição na categoria, conseguiram o troféu e servem de exemplo (apenas não se espelhem em Luis Rubiales que conseguiu estragar um momento histórico de seu país).



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quarta-feira, 9 de agosto de 2023

E Agora, Pia?

Imagem extraída de www.facebook.com/CBF



O fracasso da Seleção Feminina na Copa do Mundo 2023 foi um verdadeiro balde de água fria nas expectativas do brasileiro. Era visível a euforia com a treinadora sueca Pia Sundhage que possui um currículo vitorioso e que traria a desejada "modernidade europeia" ao futebol feminino. Emissoras e patrocinadores abraçaram o projeto da empolgada CBF de popularizar a modalidade e investiram milhões no campeonato que, infelizmente, terminou mais cedo para as nossas meninas.

A campanha abaixo das expectativas revoltou fãs, emissoras, patrocinadores e dirigentes que pediram a demissão sumária de Pia após o fracasso na Austrália. A eliminação em um grupo "acessível" (composto por França, Jamaica e Panamá), o nervosismo das jogadoras em campo e algumas decisões da treinadora (como a demora nas substituições e o corte da veterana Cristiane) pesam contra a permanência da sueca, cujo contrato vai até a metade de 2024 quando serão realizados os Jogos Olímpicos de Paris.

Podemos argumentar em defesa da sueca o fato da profissionalização do futebol feminino ser um fato recente no Brasil, tanto que os clubes só passaram a dar importância à modalidade durante os últimos 10 anos por imposição da CONMEBOL, que ameaçou excluir de suas competições os times que não investissem também nas mulheres. Ademais, temos de reconhecer que Pia tentou ao máximo acabar com a dependência de Marta e de Cristiane, algo que pouquíssimos treinadores tiveram a coragem de realizar a despeito da dupla estar com mais de 30 anos. Cabe, por fim, reconhecer que o Escrete Canarinho não era favorito ao troféu justamente pela sua falta de tradição no torneio.



Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup



Pia, segundo jornalistas, teria pedido à CBF para permanecer na Seleção através de uma carta. O presidente da confederação, Ednaldo Rodrigues, já afirmou que "não tomará qualquer decisão de cabeça quente" e vem conduzindo o assunto a banho-maria apesar das pressões para a demissão da sueca.

É necessário reconhecer que o Brasil ainda é uma nação emergente no futebol feminino enquanto países como Estados Unidos (que também já foram embora para casa), Japão, Suécia e França já se encontram em outro nível de desenvolvimento na modalidade. Interromper o trabalho de Pia neste momento seria justo pelo desempenho ruim no Mundial, mas também seria descontinuar o projeto de elevar a categoria a outros patamares afinal a sueca possui um currículo vitorioso, traz em seu DNA a tradição do esporte e ainda tem muito a nos ensinar sob diversos pontos de vista.

O desempenho de Pia no Mundial, por fim, também serve de alerta ao futebol masculino: mesmo um treinador estrangeiro e de currículo vitorioso não oferece garantia de títulos, sobretudo em um projeto a curto prazo. Ancelotti, Guardiola, Mourinho e tantos outros são vencedores mas também já cometeram erros no banco de reservas e já viram troféus escaparem entre seus dedos.

Há, portanto, argumentos prós e contra a permanência de Pia Sundhage na Seleção Feminina. Ela teve responsabilidade na eliminação precoce do Brasil mas a sueca ainda é a grande oportunidade de elevar o nosso futebol feminino a outros patamares a longo prazo. Que a decisão não seja tomada de "cabeça quente", como afirmou o presidente Ednaldo Rodrigues.



Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup




segunda-feira, 7 de agosto de 2023

A Copa das Zebras

Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup



Gostaria de escrever mais textos a respeito da Copa do Mundo Feminina que está sendo realizada na Austrália e na Nova Zelândia mas o horário ingrato me impede de ver os jogos com regularidade, assim como aconteceu nos Jogos Olímpicos de Tóquio em 2021. Apenas consegui assistir à estreia dos Estados Unidos contra o Vietnã no canal Cazé TV durante uma noite de insônia.

O Mundial, porém, já ficou marcado por algumas "zebras" com o Brasil, o Canadá e a Alemanha caindo fora já na fase de grupos apesar dos rivais teoricamente acessíveis e com os Estados Unidos sendo eliminados nos pênaltis para a Suécia nas oitavas-de-final. A competição também marcou a despedida de lendas como Marta, Megan Rapinoe e Christine Sinclair que, tristemente, deixaram a Copa mais cedo que o esperado.

Um comentário no Facebook (sim, ainda há internautas que comentam coisas legais nas redes sociais), porém, foi cirúrgico a respeito das eliminações precoces: torneios de tiro curto exigem muita concentração e força mental visto que basta um único erro para causar a eliminação de um time. Isto foi observado também durante a edição masculina em 2022 (com Alemanha, Bélgica e Espanha voltando mais cedo para casa) e não seria diferente entre as mulheres.



Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup



Devemos considerar também que do outro lado há um adversário disposto a buscar resultado. Nenhum time vem a uma competição apenas para fazer figuração, por mais limitado que seja ou por menos tradição que possua. Ademais, equipes tidas como "azaronas" simplesmente podem se aproveitar do "salto alto" de rivais considerados favoritos e surpreender em campo.

Muitos, obviamente, consideraram como "vergonha" o desempenho abaixo do esperado por parte de brasileiras, alemãs, canadenses e norte-americanas; mas isto só desmerece o empenho de Jamaica, Coréia do Sul (que morreu abraçada com a Alemanha na fase de grupos), Austrália e Suécia que lutaram demais em campo para segurarem suas rivais.

Lamenta-se que Marta, Sinclair e Rapinoe não tiveram despedidas à altura de suas respectivas grandezas no futebol mas as adversárias não tinham nada a ver com isso e desejavam vencer independente de quem estivesse do outro lado. O esporte é competição e há muito em jogo em cada partida.

É realmente triste ver equipes tradicionais voltando para casa mais cedo e também grandes estrelas se despedindo dos Mundiais pela porta dos fundos, mas é justamente isto que faz o futebol ser fascinante: a possibilidade de um time teoricamente mais "fraco" ir contra todas as chances e surpreender em campo.



Imagem extraída de www.facebook.com/fifawomensworldcup




quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Pia Entre Nós

Imagem extraída de www.facebook.com/CBF



A treinadora da Seleção Brasileira Feminina, Pia Sundhage, virou sensação nas redes sociais durante os últimos meses. Foram postados vídeos com a sueca arriscando algumas músicas em português e também alguns passinhos de samba. Algumas das filmagens, inclusive, foram publicadas pela própria técnica em seus perfis.

Pia, aos 60 anos, já está com a vida resolvida. A técnica já conquistou dezenas de títulos, tanto como jogadora, quanto como treinadora. A sueca, porém, aceitou o desafio de comandar a Seleção Brasileira Feminina após o fracasso de nossas meninas no mundial de 2019.

A presença de Pia em nossa Seleção é repleta de simbolismos afinal a sueca é a primeira estrangeira a comandar as nossas meninas e também a segunda mulher a assumir o cargo -a primeira havia sido Emily Lima que durou apenas dez meses na função.

Já mencionei em vários textos anteriores que estrangeiros quase sempre encontram dificuldades fora de seus países de origem. Da mesma forma que nossos jogadores e treinadores nem sempre conseguem se firmar fora do Brasil, atletas e técnicos vindos de fora também encontram empecilhos quando vêm se aventurar em nossas terras.



Imagem extraída de www.facebook.com/CBF



As atitudes de Pia demonstram o respeito que a sueca tem por nossa cultura e também seu esforço em se inserir em nossa sociedade. Não existe uma lei que obrigue um estrangeiro a aprender o idioma do país onde esteja residindo mas pessoas assim costumam ser mal vistas. Neymar, por exemplo, é frequentemente criticado pelo seu torcedor por não saber falar francês.

O sucesso que Pia vem fazendo nas redes sociais demonstra como os fãs brasileiros apreciam e retribuem às atitudes da treinadora. A sueca se mostra bastante à vontade diante o carinho do público e nos diverte com novos vídeos em suas redes sociais. A técnica até aceitou participar de um programa do canal humorístico Desimpedidos.

A expectativa agora é que Pia consiga repetir o sucesso que teve nos Estados Unidos e na Suécia à frente de nossa Seleção. O Brasil busca os títulos inéditos das Olimpíadas (previstas para serem realizadas em julho de 2021) e da Copa do Mundo (prevista para julho de 2023). A adaptação da treinadora ao nosso país está indo muito bem como ela mesma demonstra nas redes sociais, mas é necessário avaliar se nossas atletas se adaptarão à metodologia da técnica. A paralisação dos esportes devido à pandemia, infelizmente, impediu a realização de jogos que permitiriam a evolução da Seleção Brasileira de Sundhage.

Ainda não sabemos se Pia conseguirá levar a nossa Seleção aos títulos inéditos mas o currículo vitorioso da treinadora já nos traz alguma esperança. E, com a simpatia demonstrada nas redes sociais, não faltará apoio dos torcedores brasileiros.



Imagem extraída de www.facebook.com/CBF



VEJA MAIS:

Pia cantando "Alceu Valencia" (Twitter): twitter.com/PiaSundhage/status/1307740749463773185

Pia dançando ao som de "Raça Negra" (Twitter): twitter.com/PiaSundhage/status/1319986728376074241




domingo, 8 de março de 2020

Entrevista: a Mulher no Futebol





Bom dia, queridos leitores e principalmente leitoras!

Um Feliz Dia da Mulher a todas as mulheres do Brasil e do mundo!

Não é uma data a ser comemorada historicamente falando, afinal o Dia da Mulher foi marcado por protestos violentos e até mortes de várias trabalhadoras revindicando por igualdade visto que seus colegas do sexo masculino gozavam de melhores salários e mais direitos trabalhistas.

A luta, infelizmente, continua visto que pessoas do sexo feminino ainda sofrem muitos preconceitos e restrições em nossa sociedade, incluindo o esporte e o futebol.

O futebol feminino ganhou mais notoriedade nas últimas décadas devido à maior exposição na mídia e graças a grandes jogadoras incluindo brasileiras como Marta e Cristiane. Mas, ainda assim, a modalidade está longe de ter o mesmo destaque e glamour se comparada à sua contraparte masculina.

O blog Farma Football, pensando nisso, decidiu ouvir algumas mulheres que jogam ou jogaram futsal pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas -originalmente, eu pretendia entrevistar jogadoras de outras instituições, mas não houve tempo hábil.

Entrevistei duas garotas que já atuaram pela faculdade que eu frequentei, perguntando suas trajetórias no esporte e também suas visões sobre a mulher no futebol.



Farma Football- Nome Completo

Luana- Luana Lascala Rodrigues

Silvia- Silvia Chen



FF- Qual curso que você frequenta/frequentou?

Luana- Eu faço Farmácia-Bioquímica.

Silvia- Farmácia USP



FF- Torce para algum time de futebol? Se sim, qual?

Luana- Sim, torço para o São Paulo.

Silvia- São Paulo FC



FF- Há quanto tempo joga futebol? Ou por quanto tempo jogou futebol? Se quiser, conte um pouco de sua trajetória na modalidade.

Luana- Comecei a me interessar pelo futebol com uns 6 anos de idade,  eu passava a tarde toda jogando no prédio em que eu morava. Quando cresci um pouco comecei a  querer treinar em algum time, foi bem difícil encontrar algum lugar que tivesse futebol feminino, então com 10 anos entrei para um time misto de futsal no Clube Esperia, mas um tempo depois o time se desfez e só restaram times de meninos, dos quais eu não podia participar.

Com 15 anos, eu resolvi participar de uma peneira para entrar no time de futsal feminino da Portuguesa. Treinar com esse time foi umas das experiências mais incríveis que tive pelo futebol, no entanto, depois de alguns meses, acabei fazendo a escolha  de deixar o time, pois o foco lá era realmente seguir uma carreira profissional pelo futsal, eram treinos longos e exaustivos, os horários não estavam mais compatíveis com os da escola  e eu sabia que mesmo com todo esse esforço seria muito difícil ter um futuro pelo futebol aqui no Brasil, na época a visibilidade do futebol feminino no Brasil era ainda bem menor do que atualmente, os jogos femininos não eram nem mesmo televisionados.

Depois disso, joguei no time feminino da ACM até meus 17 anos, quando entrei na faculdade e comecei a jogar pelo time de futsal  feminino da Farmácia-USP, onde sou muito feliz jogando atualmente.

Silvia- Jogo desde os 16 anos quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos. Ou seja, 20 anos atrás! Agora já pode fazer as contas e ver quantos anos eu tenho...



FF- Qual posição que você joga/jogava?

Luana- Já joguei em diversas posições, mas atualmente, costumo jogar de pivô no futsal.

Silvia- No campo sempre fui meio-de-campo. No futsal, fico geralmente na ala ou fixo.



FF- Quantos títulos já conquistou pelo time de sua faculdade?

Luana- Em 2019, fomos campeãs da CUF (Copa Universitária de Futsal). O jogo da final do campeonato foi um dos jogos mais marcantes da minha vida, foi um jogo que sabíamos que seria muito difícil de ganhar, era contra um time bem forte, a Seleção do Mackenzie, mas entramos em quadra muito focadas e com muita raça conquistamos o título!

Silvia- Pelo time da Farma USP joguei durante toda a faculdade e mais 2 anos depois de terminado o curso. Na minha época não chegamos a conquistar títulos, mas construímos um time que 2 anos mais tarde conquistaria chegaria a final do InterUSP.



FF- Você já sofreu algum preconceito por ser mulher e jogar futebol? Se sim, conte um pouco de sua história.

Luana- Quando eu era criança e adolescente, eu jogava muitas vezes só com meninos. Nessa época, sempre ouvia alguns comentários desagradáveis: “mulher não sabe jogar bola”, “lugar de mulher é na cozinha” , “futebol é pra menino, menina tem que brincar de boneca”, entre muitos outros. Depois de um tempo, quando arrumei times femininos para jogar e nunca mais passei por situações desse tipo.

Silvia- Preconceito não. Mas sempre rola uma piadinha ou outra. Por exemplo, quando estamos jogando em time misto, e eu driblo um oponente do sexo masculino, ou defendo o ataque de um homem alguns caçoam daquele que foi driblado ou defendido por terem sido "passados pra trás" por uma mulher.



FF- Campeonatos femininos têm muito menos atenção da mídia que os masculinos, assim como os salários das jogadoras, os patrocínios, ... Em sua opinião, por que isto acontece?

Luana- Sabemos que não é apenas no futebol que as mulheres ainda sofrem com a desigualdade em diversos aspectos. Na minha opinião, os problemas que o futebol feminino enfrenta são reflexos de uma sociedade machista e consequência de um preconceito histórico. O futebol feminino só passou a ser aceito mais recentemente, quando o futebol masculino já estava muito bem estabelecido e estruturado.

Silvia- Os jogos masculinos, pela natureza do homem são mais rápidos, em termos de movimentação. Por conta disso, mais lances acabam acontecendo em jogos masculinos. Assim, existe mais espaço na mídia pra eles, consequentemente mais patrocínio e mais salário. Essa é a minha suspeita do porquê dessa disparidade.



FF- O que você acredita ser necessário para melhorar a situação do futebol feminino?

Luana- Acredito que pouco a pouco o futebol feminino está ganhando seu espaço e podendo mostrar para o mundo que ele é tão interessante quanto o futebol masculino. Para que isso continue acontecendo, temos que lutar pelo fim do preconceito e pelo maior investimento em infraestrutura e em times de base femininos, isso proporcionará um melhor rendimento das atletas e consequentemente um aumento na visibilidade, com estádios mais cheios e maior audiência na televisão.

Silvia- A demanda é que manda. Se mais pessoas se interessem por jogar e mais mulheres e homens quiserem assistir os jogos, mais espaço será criado na mídia, mais patrocínio, mais salário. Pra aumentar o interesse, precisa-se estimular as mulheres desde meninas, na escolinha.



FF- Na sua opinião, qual foi a maior conquista do futebol feminino?

Luana- O futebol feminino teve que enfrentar muitos obstáculos e dificuldades para chegar onde está. Pode até parecer mentira, mas até 1979 existia uma lei no Brasil que proibia mulheres de jogarem futebol, então certamente, a revogação dessa lei foi a principal conquista do futebol feminino e a partir disso, foram muitas outras conquistas importantes, como por exemplo a primeira Copa do Mundo Feminina televisionada em canal aberto no Brasil em 2019, que alcançou recordes de audiência.

Silvia- A contratação da jogadora australiana Samantha Kerr que assinou com o Chelsea como uma das jogadoras mais bem pagas da história.



FF- De que forma o esporte universitário ajuda ou ajudou você?

Luana- No esporte universitário, eu conheci pessoas incríveis que sei que vou levar para vida toda. Além disso, jogar é o que me dá suporte para aguentar as dificuldades e o estresse diário da graduação.

Silvia- Me deu noção do que é treinar pra alcançar um objetivo. Espírito de time e de garra até o fim. O jogo só acaba quando o juiz apita. Essa filosofia é aplicada em muitas outras áreas da vida. O futebol universitário me deu amizades pra vida e foi a base pra muitas viagens, festas, e consciência da atividade física pra bem estar e saúde.


FF- Em outros países, existe a possibilidade do acadêmico seguir carreira esportiva. Se houvesse essa possibilidade no Brasil, você jogaria profissionalmente?

Luana- O incentivo e investimento nos esportes que ocorrem em muitas universidades fora do país fazem muitos alunos terminarem a universidade com um nível esportivo bastante alto, já podendo até jogar profissionalmente. Se isso acontecesse no Brasil, com certeza eu iria tentar seguir uma carreira esportiva!

Silvia- Eu não sou nem nunca fui muito competitiva. Eu era uma das únicas que gostava mais dos treinos do que dos jogos. Então acho que falta esse elemento tem mim pra conseguir jogar profissionalmente.



FF- Que recado você gostaria de dar a outras garotas/mulheres que desejam jogar futebol?

Luana- Primeiramente, FUTEBOL É PARA MULHER, SIM! Nunca deixem que te digam ao contrário! Temos que apoiar umas às outras e juntas poderemos superar os obstáculos do futebol feminino, com o sonho de que um dia esse esporte, o qual amamos tanto, possa receber  seu devido reconhecimento!

Silvia- É um dos esportes mais fáceis de se aprender o suficiente pra se divertir. Vale a pena o investimento inicial de aprendizado e entrosamento.





terça-feira, 7 de julho de 2015

Um Outro Mérito Acadêmico




Olá, queridos leitores e leitoras!

Estive na faculdade em que me graduei durante a última sexta-feira para um motivo muito especial: a Atlética da instituição, a Associação Atlética Acadêmica Farmácia e Bioquímica (AAAFB), homenageou os alunos que, de alguma maneira, fizeram a diferença pelo esporte universitário. Os atletas (por que não chamá-los assim?) receberam um certificado atestando tais feitos.

Quem acompanha meus posts sabe que sou um defensor ferrenho do esporte universitário e faço questão de exaltar a importância de sua prática, tanto para a própria formação do aluno, quanto para o engrandecimento do nome da faculdade.

O esporte é tão importante para a universidade quanto os trabalhos científicos e o prestígio profissional do aluno. Nada mais justo, portanto, que homenagear aqueles que contribuíram com o esporte universitário de alguma forma. São pessoas que acrescentam algo à instituição.

Talvez seja por ignorância minha, mas jamais tive conhecimento de qualquer homenagem formal ao esporte acadêmico desta maneira, pelo menos aqui no Brasil.

O esporte universitário, infelizmente, ainda tem sua importância subestimada, mesmo pelas grandes universidades do país. A prioridade é sempre a publicação de trabalhos científicos ou a preparação do aluno para atuar na "indústria" -como generalizamos as empresas nas quais os acadêmicos buscam emprego.

Quando um aluno disputa uma competição, seja qual for, ele está representando a sua faculdade. Uma medalha, troféu ou título é uma honra para o acadêmico e também para a própria instituição. É um sentimento muito semelhante ao de atletas olímpicos representando seus respectivos países.

O esporte universitário pode, ainda, ser interessante sob outros aspectos. Em 2005, por exemplo, o time de vôlei masculino de minha faculdade era tão bom que chamou a atenção de uma grande empresa farmacêutica que estampou sua logomarca nos uniformes da equipe. De maneira similar, vi restaurantes estampando seus logotipos nas mangas dos uniformes do time de handebol masculino de minha faculdade.

O esporte universitário, portanto, pode engrandecer a faculdade e a universidade sob muitos aspectos, inclusive aproximando ainda mais a indústria da universidade. Sua prática deve ser incentivada e valorizada. Da mesma forma, deve-se oferecer infra-estrutura adequada para que sua prática seja possível, incluindo bons treinadores, aparelhos e espaço. E, claro, o praticante deve ser sempre valorizado, principalmente aqueles que contribuíram, de alguma forma, para o engrandecimento da modalidade.

Parabéns à AAAFB pela iniciativa de homenagear os atletas que mais contribuíram com o engrandecimento do esporte universitário e também o nome da própria faculdade! E parabéns aos alunos-atletas homenageados!

Que o exemplo seja seguido por outras instituições!






O VÔLEI BRASILEIRO É GIGANTE

Pois é! Eu estava tão entretido com a Copa América 2015 que até me esqueci do nosso vôlei. Neste final de semana, começou o Grand Prix de Vôlei Feminino e o Brasil estreou bem, derrotando Japão, Sérvia e Tailândia. O masculino, já classificado e com time misto, teve apoio de sua torcida em Cuiabá, mas só conseguiu vencer um dos dois jogos diante da poderosa Itália. O melhor, no entanto, ficou para as areias: faturamos cinco medalhas no vôlei de praia neste final de semana, sendo ouro e bronze no masculino, e as três no feminino! Parabéns ao nosso vôlei! Farei uma resenha maior para homenagear nossos atletas mais adiante!



QUE DUREZA...

Depois de um mês me deliciando com o futebol praticado pelo Chile e pela Argentina, está uma dureza voltar ao nosso pavoroso Campeonato Brasileiro. Quase todos os times estão naquela monotonia de sempre, preocupados muito mais em não perderem do que buscarem a derrota. Jogos como Goiás X Corinthians e São Paulo X Fluminense foram de doer. Será que os "professores" daqui não estariam interessados em pegar umas aulinhas com o Jorge Sampaoli?



ESTADOS UNIDOS PÕE O JAPÃO NO BOLSO

As japonesas levaram uma bela goleada de 5x2 das norte-americanas na final da Copa do Mundo de Futebol Feminino. Culpa do treinador, que resolveu encher o time de volantes ao invés de usar o que havia de melhor no elenco. As gigantes norte-americanas, que não tinham nada a ver com isso, pegaram as amedrontadas japonesas, enrolaram e botaram no bolso, como disse o grande Juca Kfouri. Eu me deliciei com espetáculo protagonizado pelos Estados Unidos, fazendo 4x0 com apenas 15 minutos de jogo!


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Ainda Falta Muita Coisa

Imagem extraída de https://www.facebook.com/CBF/


Assisti à final do Torneio Internacional de Futebol Feminino, realizado ontem. O Brasil, agora comandado por Vadão, precisava apenas de um empate contra a poderosa Seleção Norte-Americana para ficar com o penta da competição.

O Brasil fez valer o mando de campo e segurou o empate por 0x0, mas a partida deixou muito evidente a razão das norte-americanas serem as melhores do mundo junto com a Alemanha. A equipe dos Estados Unidos marcou melhor e não teve grandes dificuldades em chegar à área brasileira, principalmente no segundo tempo. A grande Marta, muito marcada, teve pouco espaço para demonstrar sua genialidade.

Então, a nossa Seleção Feminina não é tão boa como a imprensa afirma? Tivemos mais sorte do que méritos na conquista do título?

A resposta é "não".

Temos grandes jogadoras e também formamos grandes atletas. O fato de Marta ter sido eleita cinco vezes como melhor jogadora do mundo é reflexo disso. Temos uma grande escola de futebolistas femininas.

O grande problema é justamente a falta de investimento e também de divulgação do futebol feminino no Brasil. Eu não sei o nome de nenhuma equipe da modalidade. Nem sei se temos alguma liga de times profissionais de futebol feminino por aqui. Foi a mesma questão que eu mencionei a respeito do handebol no ano passado.

O reflexo disso apareceu na partida de ontem, com as norte-americanas melhores em campo. Nossas adversárias têm muito mais investimentos na modalidade, disputam uma liga profissional -a National Women's Soccer League (NWSL)- e possuem infra-estrutura adequada para treinarem. A preparação das norte-americanas, portanto, é melhor do que a das brasileiras e tal diferença apareceu em campo.

A CBF anunciou nesta semana a formação de uma "seleção feminina permanente", visando a Copa do Mundo (a ser realizada no próximo ano) e as Olimpíadas (a serem disputadas em 2016). É um bom começo, mas gostaria de ver a formação de uma liga profissional de futebol feminino, mais divulgação da modalidade e mais investimentos por parte de políticos, clubes e patrocinadores.

Há dezenas de meninas que adorariam defender a nossa Seleção e representar o nosso país em competições internacionais. O fato de nossa Seleção conseguir títulos e o fato de nossas jogadoras serem sempre muito respeitadas em nível internacional são um grande incentivo para que elas venham em busca desse sonho. Não faltam pessoas interessadas em jogar, mas faltam oportunidades para elas chegarem lá.

O Brasil se considera o país do futebol, mas poderia ser também o país do futebol feminino.



Imagem extraída de https://www.facebook.com/CBF/



Leia mais:

ESPN- Por Copa e Olimpíada, Brasil terá seleção feminina permanente no futebol: http://espn.uol.com.br/noticia/469173_por-copa-e-olimpiada-brasil-tera-selecao-feminina-permanente-no-futebol